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Eu não escrevo
Para aqueles
Que dissecam poemas

Como sapos

Eu não escrevo
Para aqueles que esperam

Um tiro na linguagem

(Minha mira só aponta
minha própria face)

Eu não escrevo para aqueles
Que esperam um alento

Eu só tento
As vezes

E sem sucesso
Sonhar

Eu não escrevo para aqueles
Ditos
Malditos

Venha passar uma noite comigo
E escreva isso

Você mesmo

Eu não escrevo
Para quem procura respostas

Somente um único ponto de interrogação
Acentua

Até a última certeza

Eu não escrevo para o seu divertimento
Apesar do sorriso pintado

Eu não escrevo inventando a delicadeza
Ela é só o antídoto da minha natureza

Eu só escrevo
No fim das contas

Porque não sei fazer bombas

Everton Behenck

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Como voltaria
Por uma trilha
Tão antiga?

Onde fantasmas espreitam
Onde tantos versos se perderam

De certo te pegarão a mão
Te roubarão o beijo

E o abraço que traz
Será desfeito

Como voltaria?

Por uma trilha
Onde as placas já não dizem bom dia
Boa tarde

Que saudade

Há quanto tempo?

De certo esse silêncio
Te cobrirá a boca

Não deixará que me chame
Não lembrará meu nome

Como voltaria
Por uma trilha

Tão antiga?

Everton Behenck

Guardo a palavra

Para não sentar à sombra
De uma árvore

Sozinho

O mundo também está perdido

[Não importa que eu não me encontre]

Everton Behenck

Tenho esse amor
Inegociável por ti

Esse que a razão
Rejeita

E bate nas mãos
Para evitar o toque

Para educar a infância
Do que te ofereço

Sem saber o preço

Tenho esse carinho
Pelo que guarda entre os cílios

Esses pedidos
Perdidos

Na esperança
Linda

Da tua retina

Tenho esse zelo
Desmedido

Sempre no apelo
De mais um beijo

Antes de ir embora

Tenho a porta
Trancada à chave

Para que você não volte

Mas ao amanhecer
É sempre você

Na minha cama

Tenho esse amor
Sempre nascendo

No desespero
De perdê-lo

Everton Behenck

Um verso
Natimorto

Velo na boca

A palavra não dita

Everton Behenck

Hei você
Vestindo a camisa

De força

Da última moda
Você que se acha ótima
Por ter quase o mínimo

De atenção

Com quem não tem chão

Hei você
Você mesma

Esqueça

Everton Behenck

Que posso fazer
Se aqui tudo é urgente

E dolorido
E o sentido é uma agulha

Sempre me tirando
Um tanto de paz

A conta gotas

Que posso fazer
Se sou esse grito contido

E a cara que se faz
Ao conter o grito
É sempre um misto aflito

De dor
E dizer

Que posso fazer
Se me pesa

Até essa certa delicadeza
Que me cerca

As palavras

Não posso fazer nada
Se elas me tomam a casa

Sussurrando como fantasmas
Suas dores

Pedindo o exorcismo de um verso
Não quero todo esse peso
Eu queria mesmo

Poder me calar

Everton Behenck

Sua presença
Aranhou a porta

Como um bicho

Matou o protagonista
De todos os livros

Fez tremer a janela
Como o vento que não era

Choveu na paisagem do quadro

E a mulher aquela
Pintada

Acabou de pernas abertas
Sozinha na chuva

E parecia você nua
E era minha a culpa

Sua presença
Deixou a luz acesa
A noite inteira

Aproveitou que você não estava

Everton Behenck

Ela deitou em minha cama
E dentro dela
Me fiz à parte

Bati asas

Ela voltou para casa
Olhou o espelho
O seio cheio
De espera

Ela agora
Me continha

E deitada em sua cama
Imaginou a barriga
Desfazer sua planície

Amanhecer

Imaginou meu beijo
As mãos em volta

O ouvido colado
Os olhos fechados

Pedindo ao menino
Que venha
Para que eu veja seu rosto

E compare as semelhanças

O nariz
A boca

O jeito
De não chorar direito
Quando dói

Chorou ao imaginar o berço

O brinquedo pendurado
O verso
Como certidão de nascimento

Do que seria
O filho da poesia

Everton Behenck

Onde te escondeu
No fim daquele dia

Eu ainda conto
Aquelas horas

E você ainda vai embora
Todas as manhãs

E não volta

E talvez seja por isso
Que não quero um filho

Eu te dei a extrema unção
Pai

Te toquei a testa
Atirei o primeiro punhado
De terra

Mas fui buscar teus dentes
No outro dia

Para colocar em minha boca

Sempre foi você
No meu rosto

Sempre fomos
Uma mesma parte

Em seu caráter

Herdei de ti
O amor à mulher
E seu vício

A dureza do que é reto

A diferença
É que sou minha própria medida

Eu crescia
E ia em tua direção

(mesmo no sentido contrário)

Você mais velho
Vinha a mim
Criança em sua esperança

E fizemos uma ciranda
Com nossos passos
Trocados

Eu herdei de ti
A vontade de voltar

Everton Behenck