Todos tivemos

Esse desejo infantil

De escrever o futuro
Como uma carta para si

Todos tivemos um beijo
Que nos cortou a voz

E uma boca a inventar
Para que a luz tivesse a quem corresponder

Todos tivemos a sensação
De um dia ter todos os nossos anos nas mãos

E então envelhecer
E já não ter

E não ser o que tanto quis

Todo mundo tem
O que não foi

Só o que não foi permanece

Todos tivemos
Um filho

Dentro dos planos
De ter um filho

E um filho dentro de nós
Morreu

Todos tivemos alegria

Que em tudo sabia
Não durar

Mas sempre resta um dia
Como um afogado

Prestes a ser resgatado

A vida
Essa água entrando nos pulmões

Todos tivemos o espelho
Que um dia deixa de nos ser

E como faz para reconhecer
Dentro do rosto que nos restou

O que há para refletir

Todos tivemos um bom amigo
Que morreu

E outro que mudou

E qual desses dois
Seremos nós

Todos tivemos

Um lado de dentro para olhar
O de fora para exibir

E tempo para se arrepender

Todos temos
Tanto para morrer

Mas temos o olhar

E nele o que ainda há
Tempo de ser

De duvidar
E entristecer

E com um pouco de sorte

Outro para encontrar
Antes que seja tarde

Depois da verdade

Everton Behenck

[Inspirado por Ana Mira]

Foto: Chsristopher McKenney.

A imagem pode conter: pessoas sentadas e atividades ao ar livre

Tento desenhar teu rosto novamente

Com a luz das palavras

Há palavra que ilumina
Há palavra que não diz nada

Triste mesmo
É quando são exatamente a mesma

Como agora

Só quem já chorou
Por não poder olhar nos olhos de alguém

Sabe o que é ser cego

E não há cegueira maior
Que a escuridão deliberada

Quando havia tanta luz
Onde agora não há nada

Quando você
Não quis me olhar nos olhos

Quando isso
Era todo contato possível

Queimou a retina do verso
De amor honesto que eu tinha

E voltei com a pálpebra dobrada
Depois amassada

Depois os olhos jogados no lixo
Esquecidos do que nunca viram

A pior imagem
É a miragem

Que a gente inventa e acredita
Só para ver alguma coisa bonita

Amor não é isso
Amor é essa foto

Que já não sei revelar

Tirada ainda
Com aquele velho filme

Que já não se fabrica

Everton Behenck

card amor

O mundo não vai acabar com uma bomba atômica disparada por um ditador coreano. O mundo acaba nos olhos da dona Ivana quando olha o filho sob um lençol que alguém trouxe, mais por nojo do que por compaixão ao corpo.

O mundo não vai acabar com uma onda gigantesca e faminta que vai derrubar o Empire State e acabar com a ironia da Estátua da Liberdade. O mundo acaba nos olhos da Luísa de seis anos. Quando viu apagar a luz e o tio Luís lhe deu um beijo diferente e disse que tinha um segredo. E que ela era bonita e eles tinham que ficar bem juntos porque tinham o mesmo nome. E depois doía.

Era o mundo que tinha acabado.

O mundo não vai acabar em um terremoto. Que vai ruir o Corcovado e o monte Fuji ao mesmo tempo no maior espetáculo da terra.

O mundo vai acabar em silêncio.

No riso doído e pequeno de um homem sem nome de quem roubaram tudo. Até a imagem. O mundo acaba nos olhos que não veem nada naquele canto da calçada. E que cheiro horrível.

O mundo não vai acabar em uma epidemia gigantesca de alguma doença transmitida pelo ar ou pelo gozo. Que vai matar homens como moscas e quando alguém se aproximar da cura será tarde. O mundo acaba quando o menino passa em frente a minha casa voltando da escola com o dente quebrado e o rosto cortado e o nariz correndo de tanto chorar pra dentro, que menino que anda daquele jeito tem que tomar soco na cara e chute no cu pra aprender a ser homem.

E que sirva de lição praquela outra que esconde os peitos na blusa apertada por baixo da camisa solta. Aquele tecido asfixiando um par de seios é onde o mundo acaba.

O mundo não vai acabar em uma guerra onde homens matarão homens e drones sem sangue matarão mulheres e crianças. E que bom, assim dá menos trabalho pro psiquiatra do exército que vai ser o último a ir pro campo de batalha quando já não sobrar quase nada.

O mundo não vai acabar com tanques.

O mundo acaba quando Mauro não suporta olhar pra sua identidade e sente raiva de si mesmo porque não era para ser daquele jeito. E quando olha na TV um deputado diz aos berros que era melhor que ele estivesse morto e a economia agradece e pensa, sozinho no quarto, que ninguém pode saber, porque o menino aquele levou soco e chute no cu apenas por se mover diferente, imagina ele que é mulher por dentro. E se é pra morrer que seja com veneno, de vestido e batom vermelho, e ele mesmo faz o serviço e acredita que finalmente morre como todo mundo queria.

Mas morre bonita.

O mundo não vai acabar em gritaria e desespero porque vem o meteoro e acerta o planeta e mata de novo os dinossauros em que nos transformamos. E o céu fica lindo em fogo e até parece santo cavaleiro do apocalipse.

A Bíblia estava certa.

O mundo não vai acabar em um grande evento científico e astro físico. O mundo acaba junto com a garrafa e o tapa na cara porque eu sou o homem dessa casa e mulher minha não se dá ao desfrute e abaixa essa música e cala a boca e me chupa sua puta e ela quase não respira a boca cheia com o pau meio mole e quando os olhos deles se encontram: é aí que o mundo acaba.

O mundo não vai acabar com a cheia dos mares, Los Angeles afogada no oceano que tenta ser o céu de repente. O mundo acaba quando a gente já não se olha e quando fala não se entende e quando canta não se emociona e quando vai pra cama não beija e quando beija mal se encosta e quando acorda, não se levanta por mais que saia da cama e quando anda pela rua está sozinho até quando se esbarra e quando para pra pensar procura logo outra coisa pra fazer que dor insuportável que de tanto doer não dói e que ar esse que eu não respiro pensando em tudo isso e olha o céu. Não tinha visto.

O mundo acaba em um dia lindo.

Sentir essa saudade. Olhar para essa saudade. Comer essa saudade como quem mastiga uma pedra e quebra os dentes e sangra e engole com dor o que nunca vai ser digerido.

Entender essa saudade. Aceitá-la.

Como tive de aceitar que você, mais uma vez, não acordou ao meu lado. Como tive que aceitar que não passamos desse mar de letras que se empilham sobre a tela fria, buscando calor e verdade nos olhos de quem lê. Somos esses olhos estáticos na foto ao lado da fala muda cheia de erros de digitação.

É saudade.

Passar a mão sobre seu pelo feito com cada beijo que não pude dar.Tenho andado pela cidade estranha. As vezes bebo. E enlouqueço. E viro mais de uma noite e não durmo, nem choro. A melhor meta anfetamina não dá mais que algumas horas de alegria química.

Espanta o sono. Quase espanta a falta.

Mas não sou mais esse. As vezes me mantenho terrivelmente sóbrio. E tampouco sei como existir nessa pele em que também não me reconheço. Sou de fato esse que está ao seu lado.

E não existe.

Sou esse fantasma. Sem corpo. Sem túmulo. Sem voz e sem forças. Para unir com as mãos as centenas de quilômetros e os destinos que insistem em manterem-se estranhos. O quanto ainda teremos de brigar com a vida empunhando apenas a palavra de amor?

A vontade de realizar o que a vida impede com tanta competência. Essa coragem de levantar a voz contra ela e cuspir amor na sua cara. Não temer sua vingança. O que pode a vida contra quem se ama?

O amor é essa matéria estranha. O amor não respeita as leis da física, o amor não se submete.

O amor é o que coloco no lugar dos olhos. Para ver dentro dessa saudade. E dentro dessa saudade, existe um retrato onde estamos velhos.

Sei que a velocidade se atira sobre minha pele e deixa marcas. Cada vez mais fundas. E elas não dizem nada. Minha pele não é nenhuma escritura.

Mais um ano avança faminto sem que eu perceba e já é novembro e janeiro ainda esquenta os cabelos, que não tenho tempo de cortar. Será que o homem que trabalha cortando cabelos, no salão da praça Alves, pensa no tempo caindo no chão? Pensa na vida perdida ali enquanto passa a vassoura? E joga no lixo os meses de outra pessoa. Quem sabe vividos? Quem sabe desperdiçados?

Uma amiga se oferece para me ouvir. Não sei o que dizer. Digo apenas que sou forte. Ao mesmo tempo, procuro a força dentro de mim como alguém atrasado procura as chaves de casa. Busco só para mostrar a ela. Não encontro. Não vou sair de casa hoje.

A distância me impressiona por sua estatura e as vezes parece que nunca saltaremos sobre ela. Mas eu ouço a voz do amor, como uma criança perdida do outro lado de um muro que divide cidades. Meu peito é a Berlim dos anos 80. Pelo menos há o alento de viver no futuro daquele tempo. Sei que o muro cairá. E nós, essa família separada pela guerra, nos encontraremos.

Tenho vendido caro meu tempo para fazer com que outros queiram coisas que eu mesmo não quero. Tenho vendido caro meu tempo. Mentira. O tempo não tem preço e sempre fará falta. O tempo falta.

E quando acabar?

O que restará de mim além do meu nome? Quanto tempo dura o nome de um homem? Cravo essas palavras no nada, querendo que elas digam mais que meu batismo. Que elas me esperem passar. Que não se dissipem tão cedo como a fala ao vento.

O mundo todo está morrendo em silêncio. Não me acorde.

O mundo veio aqui
Para ficar só

Não disse nada
Nem girar, girava

O mundo veio aqui

Para chorar lama
Para esquecer a agressão
Que é ver coisas e pessoas

Valerem nada
Na sexta feira amarga

O mundo veio aqui
Para ficar só

Como o menino estava só
Morto na praia

Como o amor estava só
Quando começaram os disparos

O mundo veio aqui
Para ficar só

Lembrar seus mortos
E sentir-se pequeno

O mundo está aqui dentro

E estamos todos
Morrendo

Foto de Everton Behenck.

É tanto que te amo
Nesse acumulo de horas

Que já somam um ano

Partilho os dias
Como quem divide a única comida

Um grão para ti
Outro para minha boca

Que há tanto não se alimenta

Desenho no ar
Com o ar que expiro

É tua falta essa tinta

Arrasto no chão
Os pés fartos

Não importa onde pisam
Estão indo ao teu encontro

Os pés não sabem
Que vou e volto para casa

Os pés reclamam
Que nunca chego

E choram pegadas e mais pegadas
Que a calçada não entende

É tanto que te amo

Dentro dessa vida
Dada a nossa revelia

Essa que empresta
De ti o nome

E me consome
Na vontade insone

De um beijo

Há sentido dizer beijo
Dentro de uma boca vazia?

É tanto que te amo
Morando dentro dessa urgência

O mundo ampulheta
Os olhos de areia

Sem te ver

A pele já sem memória
Acordando para o toque

Agora

Inventando o calor da tua pele
Para que o tato se revele

É tanto que te amo
Que em tua ausência

Nada serve

A vida é uma roupa apertada
Não veste

A cidade é a pedra

Mas também é o pé sobre a pedra

Que sustenta o corpo

E o corpo de um homem
É a palavra que ele guarda

Entre as costelas

E a palavra
Sustenta toda humanidade

A cidade
É o concreto

Mas também é a árvore
Que nasce sem saber da cidade

E a árvore é tudo que veio antes dela
A árvore é a primeira casa

A cidade

É esse barulho enorme
E contínuo

Mas também é a capacidade
De dormir dentro do seu rugido

A cidade
É o silêncio dentro do sonho

De possuí-la

E tudo que acontece dentro de um sonho
É muito maior do que a cidade

A cidade são os cinco meninos
Mortos à queima roupa

Sem antecedentes
Sem futuro e sem passado

Para garantir meu sono
Bem pago

A cidade é essa paz
Que custa tão caro

A história está morta meu amigo. Os homens, vivos. Por isso, ainda hoje, é preciso que as mulheres fiquem nuas em praça pública e digam poemas. Por isso é preciso que elas gritem a plenos pulmões: somos mulheres. Com tudo que isso encerra.

Sempre soubemos que eram mulheres, não é isso. Mas a história, esse corpo não velado, faz todos esquecerem o que é humano.

Se não sabemos o que é humano, como saberíamos o que é a mulher? Esse bicho mais que homem. Que a gente mata, e passa as mãos. E viola. E diz coisas ao ouvido que não diríamos nem a ao escuro que não reconhece nosso rosto.

Nunca senti tanta vergonha como nesses dias.

Eu que nunca peguei em um braço, puxei um cabelo. Eu que nunca disse o que faria. Eu que nunca faria. Ainda assim. Mesmo eu que amei o amor e a mulher mais do que amei a mim. Ainda assim. Tenho minhas mãos e me envergonho delas. Tentei lembrar dos corpos que toquei ao menor sinal dos olhos. No fogo das noites. Já que os rostos, esses, não lembro. Nunca lembramos. Lembrei ainda mais daquelas que não passei as mãos, apenas por ser tímido.

E esses são os pensamentos mais doloridos.

Lembro das que gostaram e deram seu aceno. E busco nelas, alívio. Mas penso mesmo nas que saíram de perto. O olhar esquivo. Não escutarão jamais meu pedido de desculpas. Minhas mãos ainda estão em vocês e queimam. Me perdoem.

Mas nos foi ensinado ser homem.

E a história, mesmo morta, sabe bem o que é ser homem. Ser homem é poder. E poder é essa prisão onde podemos fazer tudo.

Nascemos machos e machistas e cheios de vontades e mais que vontades, permissões, e mais que permissões, deveres. Não importam as dores que causem. E causam. A nós ou aos outros. Às outras. Não importa.

Um homem deve provar-se frente aos outros homens.

Sob a pena de nos transformamos naquilo que mais desejamos e tememos: a mulher.

‪#‎PrimeiroAssédio‬

Impossível não se emocionar com as mulheres na praça no Rio.
Impossível não se emocionar com os relatos.
Impossível não refletir sobre tudo isso.

Obrigado, meninas.
Contem comigo.
E desculpe. Por todos.