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Doutor
Procure cura

Para a mulher deitada
Em sua cama

Que muito ela chama
E ninguém responde

E a dor se esconde
Em seu travesseiro

Mande remédio
Doutor

Que a menina
Mesmo desprezada

Luta consigo
Para tirar alívio
Dos olhos aflitos

Ela não sabe doutor
Que está doente

E o que sente
É o sintoma
Da sua enfermidade

Seu pensamento
A morde doutor

E ela não pode
Lutar contra isso

Sem perder litros e litros
De seu brilho

E ela já brilhou muito
Doutor

Venha acudir
Que ela se refugia
Na raiva vazia

E são muitos os perigos
No lugar desconhecido

Onde esta
Que a prende

Lhe arranca os dentes
E os cílios

Não é bonito de ver doutor

Então venha
O mais brevemente

Porque ela
Já está perdendo as forças

De tanto lutar com essa outra

De tantos braços
E bocas que falam

E ouvido que inventam
E respiram

Não imagino
Que tipo de medicamento

Pode arrancar alguém

De dentro

Sem que esse
Não se despedace

Em mil partes
Fúteis como a tarde

Preciso saber doutor

Se ela sobreviveria
A anestesia

Por favor

Mande remédio
Porque é muito sério
Que uma mulher tão linda

Fique fraca e cinza

E que não se perceba mais
Aquela

Que espera dentro dela
Como um pássaro azul

Ela organiza as coisas
Tentando organizar a si mesma

Mas é como um castelo de areia
Vem sempre a onda

Quantas vezes é possível
Começar tudo do início

Existe remédio para isso?

Quanto sacrifício
Transformar a dor em ofício

Mande quem sabe
Tratamento

Unguento para seu tormento
Mande um remédio

Preciso cura-la

Porque a amo
E já não posso mais ama-la

Por favor
Doutor

Pesquise

Se a medicina
Já entende

Como se faz nascer gente
De gente adulta

Não há luta mais dura

A vida é uma carnificina
E vai devorar a menina

E morrerá nela
Essa mulher

Que nunca nasceu

Quantas vezes
Ela correu aos olhos

Para ver lá fora

Encontrar quem passa
Apaixonar um homem

Quantas vezes
Ela desapareceu

Os olhos e a respiração
Respirando escuridão

O rosto
Desfigurado

Quanto estrago

Quem já viu
Algo capaz de causar isso
A uma pessoa

Não ser capaz
De suportar o amor

Não ser capaz
De suportar a paz

Onde mais posso encontrar
Alivio para ela

Traga remédio doutor

Que morrer de amor
A muito não se usa

E enlouquecer é simples

Não é possível viver assim
Por tempo indefinido

Não é possível

Se perder pelas cores
De algo invisível

Me pergunto
O que acontece com seus olhos

Buracos negros
Absurdamente sólidos

Sugando tudo com sua gravidade
Olhos negros de verdade

Doutor
Não fuja da sua responsabilidade

Mande remédios
Urgentemente

Para um vulto
Que arde em febre

Para mantê-la leve

Para que ela desperte
Suavemente

E acorde o amor na gente

Mande remédio
Que ela merece

Saúde

E se remédio lhe sobrar
Doutor

Mande remédio para mim

Everton Behenck

*Homenagem ao poetinha e o seu Desespero da Piedade.