É tanto que te amo
Nesse acumulo de horas

Que já somam um ano

Partilho os dias
Como quem divide a única comida

Um grão para ti
Outro para minha boca

Que há tanto não se alimenta

Desenho no ar
Com o ar que expiro

É tua falta essa tinta

Arrasto no chão
Os pés fartos

Não importa onde pisam
Estão indo ao teu encontro

Os pés não sabem
Que vou e volto para casa

Os pés reclamam
Que nunca chego

E choram pegadas e mais pegadas
Que a calçada não entende

É tanto que te amo

Dentro dessa vida
Dada a nossa revelia

Essa que empresta
De ti o nome

E me consome
Na vontade insone

De um beijo

Há sentido dizer beijo
Dentro de uma boca vazia?

É tanto que te amo
Morando dentro dessa urgência

O mundo ampulheta
Os olhos de areia

Sem te ver

A pele já sem memória
Acordando para o toque

Agora

Inventando o calor da tua pele
Para que o tato se revele

É tanto que te amo
Que em tua ausência

Nada serve

A vida é uma roupa apertada
Não veste

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A cidade é a pedra

Mas também é o pé sobre a pedra

Que sustenta o corpo

E o corpo de um homem
É a palavra que ele guarda

Entre as costelas

E a palavra
Sustenta toda humanidade

A cidade
É o concreto

Mas também é a árvore
Que nasce sem saber da cidade

E a árvore é tudo que veio antes dela
A árvore é a primeira casa

A cidade

É esse barulho enorme
E contínuo

Mas também é a capacidade
De dormir dentro do seu rugido

A cidade
É o silêncio dentro do sonho

De possuí-la

E tudo que acontece dentro de um sonho
É muito maior do que a cidade

A cidade são os cinco meninos
Mortos à queima roupa

Sem antecedentes
Sem futuro e sem passado

Para garantir meu sono
Bem pago

A cidade é essa paz
Que custa tão caro

A história está morta meu amigo. Os homens, vivos. Por isso, ainda hoje, é preciso que as mulheres fiquem nuas em praça pública e digam poemas. Por isso é preciso que elas gritem a plenos pulmões: somos mulheres. Com tudo que isso encerra.

Sempre soubemos que eram mulheres, não é isso. Mas a história, esse corpo não velado, faz todos esquecerem o que é humano.

Se não sabemos o que é humano, como saberíamos o que é a mulher? Esse bicho mais que homem. Que a gente mata, e passa as mãos. E viola. E diz coisas ao ouvido que não diríamos nem a ao escuro que não reconhece nosso rosto.

Nunca senti tanta vergonha como nesses dias.

Eu que nunca peguei em um braço, puxei um cabelo. Eu que nunca disse o que faria. Eu que nunca faria. Ainda assim. Mesmo eu que amei o amor e a mulher mais do que amei a mim. Ainda assim. Tenho minhas mãos e me envergonho delas. Tentei lembrar dos corpos que toquei ao menor sinal dos olhos. No fogo das noites. Já que os rostos, esses, não lembro. Nunca lembramos. Lembrei ainda mais daquelas que não passei as mãos, apenas por ser tímido.

E esses são os pensamentos mais doloridos.

Lembro das que gostaram e deram seu aceno. E busco nelas, alívio. Mas penso mesmo nas que saíram de perto. O olhar esquivo. Não escutarão jamais meu pedido de desculpas. Minhas mãos ainda estão em vocês e queimam. Me perdoem.

Mas nos foi ensinado ser homem.

E a história, mesmo morta, sabe bem o que é ser homem. Ser homem é poder. E poder é essa prisão onde podemos fazer tudo.

Nascemos machos e machistas e cheios de vontades e mais que vontades, permissões, e mais que permissões, deveres. Não importam as dores que causem. E causam. A nós ou aos outros. Às outras. Não importa.

Um homem deve provar-se frente aos outros homens.

Sob a pena de nos transformamos naquilo que mais desejamos e tememos: a mulher.

‪#‎PrimeiroAssédio‬

Impossível não se emocionar com as mulheres na praça no Rio.
Impossível não se emocionar com os relatos.
Impossível não refletir sobre tudo isso.

Obrigado, meninas.
Contem comigo.
E desculpe. Por todos.

Eu aqui, guardando esse sol nos olhos e na pele e no suor. Tudo é líquido e escorre. No sul, a chuva do mundo todo caiu. E não só os olhos de quem ficou estão molhados. O amor também está correndo como um rio urbano no silêncio dos raios.

Ilumina e mata.

Eu aqui. Acima de tudo, só. Imaginando os olhos de alguém que me pertence justamente porque me possui.

É coisa libertadora pertencer.

Disseram que algo estranho está passando na frente de uma estrela distante. Não é um planeta. Pode ser obra de uma civilização. Não sei. Mas gosto de pensar que outros agora também imaginam os olhos de alguém a quem pertencem. E caso não tenham olhos, gosto de imaginar que pensam em seja lá o que for que usem para inventar a realidade.

Deve ser triste não ter olhos para imaginar.

Ainda ontem, bebi sozinho e olhei a distância dos prédios e do horizonte que eles escondem. E pensei nela e pensei em mim e pensei no sul e pensei nessa estrela onde uma possível civilização orbita. Como se fosse possível essa coisa abstrata: civilização. Mas não sei o que me disse o pensamento.

Ando devastado e não chego a conclusão nenhuma.

Talvez por isso, pense tanto no propósito de tudo que faço e gostaria de encontrar em tudo um sentido profundo. Não encontro. Só carrego a honestidade que gosto tanto de pensar que tenho.

Quem brinca com essas luzes que vemos no céu à noite? Esse tempo onde estamos presos é tão estranho. Os acontecimentos nos atravessam como a luz atravessa o vidro da minha janela ao amanhecer. Quase me acorda. Mas não acordo.

A vida não está sendo justa com ela e nos seus olhos, que imagino agora, mora uma dor concreta. Como se houvesse um cisco no sol. Esse sol que guardo nos meus olhos e na minha pele e no suor. Os olhos que imagino são um sol. Tenho pensado e sentido todas essas coisas e não tenho tido tempo para viver. Mas não sei o que isso quer dizer. Não parece, mas estou sorrindo agora. Me irrito com os dias e com as noites, mas ainda assim, fora da vida parece pior.

O silêncio brutal do espaço.

Então, acho que vou pensar um pouco mais. Nos olhos dela. No amor que anda brincando com o menino que mora dentro dos meus ossos. E é sério. Então, acho que vou pensar um pouco mais na civilização orbitando a estrela e vou guardar para depois a lágrima que não choveu no sul.

Foto de Everton Behenck.

Eu ganho paixões cadentes

De presente

Amores eternos
Que eu nego

Eu não consigo dormir a noite

Eu gasto os músculos
A todo custo

E não há força
Que sustente

Eu queimo
E apago incêndios

Com água ardente

Eu não sou gente
Nem bicho

Não estou vivo
Nem suicido

Eu apenas brinco
No abismo

Que não mede mais
Que a caixa de areia

Onde brinca
Uma criança

Na coragem da infância

Você que é feita

Dos quadris que se movem

Do desenho simétrico
Dois lados que se completam

Enchendo mãos
E olhos

Você que é feita

Do calor entre as pernas
Do vermelho dos lábios

Você que é dona

Dos seios perfeitos
E do meu peito

Você que se move
Como quem dança

E anda como quem nunca se perde

Você mulher
Feita da boca

E do beijo

Que ela insinua
Em cada palavra

Você que é meu idioma

Você que é feita
Do comprimento dos cabelos

E do seu movimento

E eles são um mar
Tão bom de se afogar

Você que é feita
De pele

E tua pele
Feita de luz

E tua luz
Feita de vida

E tua vida feita de amor
Que você me entrega

Com todo corpo
Com todo espírito
Com todo riso

Você feita de tudo isso
Onde me encontro

Vivo

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Quero conhecer
Um macaco

Conviver com um macaco

Olhar no fundo dos olhos
De um macaco

Falar algo
Direto para um macaco

Escutá-lo

Chamar um macaco
Pelo nome

Abraçá-lo

Bater continência
Para um macaco

Pedir a benção

Beijar a mão
De um macaco

Olhar um macaco
Morrendo

Ver que esse macaco
Não entende

Exatamente
Como eu não entendo

Nós

Que nos reconhecemos
Pelo som

Antes da voz

Nós que olhamos para dentro
Do outro

Engolindo a distância

Nós que atravessamos relevos
E rios

Mais rápido que a luz

Nós que inventamos
O teletransporte

Nós

Que aprendemos a morar
Na voz

Nós que transformamos o mundo
Em um detalhe

Nós que estamos
Um com o outro

Em todos os universos
Paralelos

Nós que temos um deus
Servindo a nós dois

Nós que não temos medo
Da palavra gasta

O amor

Nós que negamos tudo ao redor
Com tanta naturalidade

Que parecemos loucos
Para todos os outros

Em nossa calma

Nós que encontramos
Entre seis bilhões de estranhos

Essa combinação única
De defeitos e sonhos

Essa teimosia
Pela vida

Nós que não vivemos
Nas guerras que travamos

Porque temos
Um ao outro

Como poderia
Tudo isso que já é uma vida

Caber em um único dia?