A história está morta meu amigo. Os homens, vivos. Por isso, ainda hoje, é preciso que as mulheres fiquem nuas em praça pública e digam poemas. Por isso é preciso que elas gritem a plenos pulmões: somos mulheres. Com tudo que isso encerra.

Sempre soubemos que eram mulheres, não é isso. Mas a história, esse corpo não velado, faz todos esquecerem o que é humano.

Se não sabemos o que é humano, como saberíamos o que é a mulher? Esse bicho mais que homem. Que a gente mata, e passa as mãos. E viola. E diz coisas ao ouvido que não diríamos nem a ao escuro que não reconhece nosso rosto.

Nunca senti tanta vergonha como nesses dias.

Eu que nunca peguei em um braço, puxei um cabelo. Eu que nunca disse o que faria. Eu que nunca faria. Ainda assim. Mesmo eu que amei o amor e a mulher mais do que amei a mim. Ainda assim. Tenho minhas mãos e me envergonho delas. Tentei lembrar dos corpos que toquei ao menor sinal dos olhos. No fogo das noites. Já que os rostos, esses, não lembro. Nunca lembramos. Lembrei ainda mais daquelas que não passei as mãos, apenas por ser tímido.

E esses são os pensamentos mais doloridos.

Lembro das que gostaram e deram seu aceno. E busco nelas, alívio. Mas penso mesmo nas que saíram de perto. O olhar esquivo. Não escutarão jamais meu pedido de desculpas. Minhas mãos ainda estão em vocês e queimam. Me perdoem.

Mas nos foi ensinado ser homem.

E a história, mesmo morta, sabe bem o que é ser homem. Ser homem é poder. E poder é essa prisão onde podemos fazer tudo.

Nascemos machos e machistas e cheios de vontades e mais que vontades, permissões, e mais que permissões, deveres. Não importam as dores que causem. E causam. A nós ou aos outros. Às outras. Não importa.

Um homem deve provar-se frente aos outros homens.

Sob a pena de nos transformamos naquilo que mais desejamos e tememos: a mulher.

‪#‎PrimeiroAssédio‬

Impossível não se emocionar com as mulheres na praça no Rio.
Impossível não se emocionar com os relatos.
Impossível não refletir sobre tudo isso.

Obrigado, meninas.
Contem comigo.
E desculpe. Por todos.

Eu aqui, guardando esse sol nos olhos e na pele e no suor. Tudo é líquido e escorre. No sul, a chuva do mundo todo caiu. E não só os olhos de quem ficou estão molhados. O amor também está correndo como um rio urbano no silêncio dos raios.

Ilumina e mata.

Eu aqui. Acima de tudo, só. Imaginando os olhos de alguém que me pertence justamente porque me possui.

É coisa libertadora pertencer.

Disseram que algo estranho está passando na frente de uma estrela distante. Não é um planeta. Pode ser obra de uma civilização. Não sei. Mas gosto de pensar que outros agora também imaginam os olhos de alguém a quem pertencem. E caso não tenham olhos, gosto de imaginar que pensam em seja lá o que for que usem para inventar a realidade.

Deve ser triste não ter olhos para imaginar.

Ainda ontem, bebi sozinho e olhei a distância dos prédios e do horizonte que eles escondem. E pensei nela e pensei em mim e pensei no sul e pensei nessa estrela onde uma possível civilização orbita. Como se fosse possível essa coisa abstrata: civilização. Mas não sei o que me disse o pensamento.

Ando devastado e não chego a conclusão nenhuma.

Talvez por isso, pense tanto no propósito de tudo que faço e gostaria de encontrar em tudo um sentido profundo. Não encontro. Só carrego a honestidade que gosto tanto de pensar que tenho.

Quem brinca com essas luzes que vemos no céu à noite? Esse tempo onde estamos presos é tão estranho. Os acontecimentos nos atravessam como a luz atravessa o vidro da minha janela ao amanhecer. Quase me acorda. Mas não acordo.

A vida não está sendo justa com ela e nos seus olhos, que imagino agora, mora uma dor concreta. Como se houvesse um cisco no sol. Esse sol que guardo nos meus olhos e na minha pele e no suor. Os olhos que imagino são um sol. Tenho pensado e sentido todas essas coisas e não tenho tido tempo para viver. Mas não sei o que isso quer dizer. Não parece, mas estou sorrindo agora. Me irrito com os dias e com as noites, mas ainda assim, fora da vida parece pior.

O silêncio brutal do espaço.

Então, acho que vou pensar um pouco mais. Nos olhos dela. No amor que anda brincando com o menino que mora dentro dos meus ossos. E é sério. Então, acho que vou pensar um pouco mais na civilização orbitando a estrela e vou guardar para depois a lágrima que não choveu no sul.

Foto de Everton Behenck.

Eu ganho paixões cadentes

De presente

Amores eternos
Que eu nego

Eu não consigo dormir a noite

Eu gasto os músculos
A todo custo

E não há força
Que sustente

Eu queimo
E apago incêndios

Com água ardente

Eu não sou gente
Nem bicho

Não estou vivo
Nem suicido

Eu apenas brinco
No abismo

Que não mede mais
Que a caixa de areia

Onde brinca
Uma criança

Na coragem da infância

Você que é feita

Dos quadris que se movem

Do desenho simétrico
Dois lados que se completam

Enchendo mãos
E olhos

Você que é feita

Do calor entre as pernas
Do vermelho dos lábios

Você que é dona

Dos seios perfeitos
E do meu peito

Você que se move
Como quem dança

E anda como quem nunca se perde

Você mulher
Feita da boca

E do beijo

Que ela insinua
Em cada palavra

Você que é meu idioma

Você que é feita
Do comprimento dos cabelos

E do seu movimento

E eles são um mar
Tão bom de se afogar

Você que é feita
De pele

E tua pele
Feita de luz

E tua luz
Feita de vida

E tua vida feita de amor
Que você me entrega

Com todo corpo
Com todo espírito
Com todo riso

Você feita de tudo isso
Onde me encontro

Vivo

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Quero conhecer
Um macaco

Conviver com um macaco

Olhar no fundo dos olhos
De um macaco

Falar algo
Direto para um macaco

Escutá-lo

Chamar um macaco
Pelo nome

Abraçá-lo

Bater continência
Para um macaco

Pedir a benção

Beijar a mão
De um macaco

Olhar um macaco
Morrendo

Ver que esse macaco
Não entende

Exatamente
Como eu não entendo

Nós

Que nos reconhecemos
Pelo som

Antes da voz

Nós que olhamos para dentro
Do outro

Engolindo a distância

Nós que atravessamos relevos
E rios

Mais rápido que a luz

Nós que inventamos
O teletransporte

Nós

Que aprendemos a morar
Na voz

Nós que transformamos o mundo
Em um detalhe

Nós que estamos
Um com o outro

Em todos os universos
Paralelos

Nós que temos um deus
Servindo a nós dois

Nós que não temos medo
Da palavra gasta

O amor

Nós que negamos tudo ao redor
Com tanta naturalidade

Que parecemos loucos
Para todos os outros

Em nossa calma

Nós que encontramos
Entre seis bilhões de estranhos

Essa combinação única
De defeitos e sonhos

Essa teimosia
Pela vida

Nós que não vivemos
Nas guerras que travamos

Porque temos
Um ao outro

Como poderia
Tudo isso que já é uma vida

Caber em um único dia?

Sempre há a chance de que tudo seja um erro. Mas o erro faz parte da matéria de que é feita a vida, e é neles que mais aprendemos. Tudo pode ser uma loucura mesmo. O coração tem olhos frágeis. E inventa o horizonte para onde os aponta. As vezes se engana. É cego e analfabeto. E as vezes nem era o coração que estava nos soprando coisas no ouvido. Nos sentidos.

Acontece eu sei. Já vi.

Do amor, seus filhos e parentes eu sei tudo o que é possível. E isso é entender que pouco sabemos. O amor é um mistério tão grande quanto o universo. Mas o amor é meu ofício desde que me entendo homem. O amor é meu lugar no mundo. Já fui amado mais do que qualquer um nessa terra. Com devoção honesta. Com dor e sacrifício. Com loucura e vício. Com prazer de perder o céu e o chão. De encontrar deus. Marquei a ferro muitas vidas. E fui marcado na mesma medida. Com dor e trauma e destruição. Com felicidade de despertar a inveja do paraíso.

O amor é tudo isso. E multiplica seu sentido assim que o descobrimos. Já amei mais do que poderia supor qualquer possibilidade, sanidade ou autopreservação.

Eu não me preservo. Eu já morri de amor. Eu sou louco e queimo até que não sobre nada além das cinzas. E dessas cinzas eu tiro força e energia o bastante para sair do que sobrou da fogueira com um diamante no peito. Eu não tenho medo. E teria todos os motivos para tê-lo. Ainda caminho sobre a terra arrasada. Mas tenho certeza que serei sempre mais forte quando deixa-la. Eu já perdi tudo. Fiquei sem nada no mundo. Sem nenhum pertence.

Por amor.

Se alguém tem motivos para correr na direção contrária, sou eu. Mas eu não corro. Por amor eu faço tudo. Poderia ser o primeiro a ficar torcendo por uma chance de voltar atrás. De correr para um lugar seguro. De voltar para a zona de conforto.

Mas onde é a zona de conforto quando se está amando?

O amor só é conforto depois que ele próprio olha para você e percebe o quanto está entregue e vulnerável. O quanto é incapaz de se defender. O quanto não quer se proteger enquanto atravessa as dúvidas e a angústia. Para descobrir o que há do outro lado. O amor é sempre um lugar onde a gente nunca esteve. O amor inventa dentes assustadores e sorri com eles. Só para ver se temos coragem de entrar em sua boca. E só então beber seu beijo.

O amor não é para os fracos. O amor não é para quem morre de medo. Para quem precisa estar no comando. O amor é a própria ordem. Por isso até os planos são supérfluos nesse momento. O amor muda o sentido da bússola. O amor se apossa da casa. Troca a fechadura.

Eu entendo quem foge. Eu entendo que o amor fique mais raro e assustador na media em que avançamos nesse século de apaixonados pelo espelho. Entendo que menos pessoas o reconheçam. Ou que simplesmente não se importem. E que não achem valer a pena assumir os riscos. Pagar o preço. Provavelmente não vale. Eu entendo quem se preserva. Quem se protege. Quem escolhe o lugar seguro.

Eu entendo. E quem sou eu para dizer que estão errados? Não sou exemplo se não de que amor não mata. Na maior parte das vezes. Só tenho a meu favor o que dizem meus olhos.

Mas quem se arriscaria para vê-los de perto?
Eu entendo quem vira as costas. Quem dá de ombros.

O amor é o quarto e é a rua. Ao mesmo tempo. E é claro que tudo fica mais fácil sem o amor. O amor é um saco e só atrapalha o que estava certo e calmo. O amor é um cão dos diabos, já dizia o velho poeta bêbado com um pássaro azul no peito.

O amor pode não dar certo. Mas só ele pode nos dar tudo.

Inventamos a linguagem da distância

A voz da distância

A fala grave da distância

O idioma
Do que está longe

Inventamos a audição
Da distância

No que diz o vento

E ele repete
Nosso tempo

E nos conta

Dominamos a distância
Para inventar uma forma

De cobrir os olhos da falta
Para que ela nunca nos olhe

De volta