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É preciso
Amar o outro

Ao ponto de manda-lo
Embora

É preciso amar o outro
E não o que ele lhe causa

Quem ama o amor do outro
Não está amando

Quem ama o prazer que sente
Não está amando

Quem ama o gozo
Que emana do outro

Não está amando

Quem ama no outro
Suas próprias qualidades

Não ama nem a metade

Quem ama os defeitos que o outro
perdoa

Não ama
Se confessa

Quem ama
Por promessa

Não tem fé

Quem ama por decreto
Nunca ama certo

Quem ama a vaidade
Que o outro lhe devolve

Acreditará que ama enorme

Quem ama o que o outro
Absorve

Se julga forte

E ama doente

Quem ama a fraqueza do outro
Pelo gozo do cuidado

Ama sua bondade
Não ao outro

Quem ama tudo o que entrega
Ama sua generosidade

E isso é bonito
Mesmo não sendo amor

De verdade

Quem ama mais do que pode
Ama o excesso
E o que isto custa

E por isso ama
Ter esta carta na manga

Quem ama
Mentindo a si mesmo

Ama a imagem que inventa
E tudo que ela representa

Quem ama sem que o outro queira
Ama ao contrário

A vontade alheia

Quem diz que ama
O tempo inteiro

Ama o som de sua voz

Quem ama a sós
Sabendo disso

Ama a solidão
Em sua fidelidade

Quem ama o que o outro
Não reparte

Ama sua pouca sorte
E se orgulha dela

Quem ama a fidelidade
Ama a ideia

De controlar o sexo
E com o sexo a vida

E com a vida o tempo

E nada nos afasta mais do amor
Do que ser deus

Só ama de verdade

Quem ama o outro
Até quando o outro

Parte

Não tive coragem
De te ver morto

Meu amigo

Não tenho coragem
De te deixar morrer

Nem de deixar morrer
Tudo isso

Que inevitavelmente
Morre contigo

Sem que seja preciso
Minha permissão

Morre contigo
Amigo

A última ilusão
Da juventude

A imortalidade

Você deixou todos
Adultos

Em teu luto

E não é justo
Mudar a idade de todos

Anos e mais anos
No tempo de um susto

Mas não te culpo
Amigo

Certamente
Se dependesse de ti

Nós todos estaríamos aqui

Rindo de tudo isso
Voltando àqueles meninos

Dos retratos mais antigos

Mas agora
Sem teu humor

Que graça pode haver

Não adianta
Não consigo te deixar morrer

Minha vontade é ir até aí
E gritar bem alto

Porra, Pablo

E cavar com a voz
Até te encontrar

E rir um pouco mais

Não foi o bastante
E nunca teria sido

O bastante estar contigo

Ficamos aqui
Nós todos

Perdidos pelo mundo
E em tua ausência

E tudo o que ela significa
Para quem fica

O Peruca está voltando ao Brasil
Depois de tantos anos

Mateus logo aparece
Para um encontro

O Lúcio eu vi ano passado
Em Berlim

E lembramos de ti
E de todos

Regi tenho visto pouco
Apesar de estarmos em Porto

Mas tomamos uma cerveja esses dias
Em uma livraria

E rimos como sempre

O Polydoro não sei bem
Em Sampa talvez

Casando ou separando
Estudando

O Marcio pelo menos
Vejo sempre

Os ossos do ofício
Trabalhando a nosso favor

Pelo menos isso

O Diego foi quem teve força
Para levar nosso abraço

Antes que fosse tarde

Eu não pude
Sou covarde

Não consigo
Ver morrer assim

Um amigo

Não adianta
Não consigo

Então trate de pegar
A velha fantasia de presidiário

De desenho animado

Juntar todas aquelas historias velhas
Que vivemos repetindo

E trazer todas contigo
Para o próximo encontro

Everton Behenck

Minhas ilusões de amor
Essas que hoje se espalham

Na invenção da memória

Essas que estão
Perdidas pela cidade

Na gaveta de alguém
Em um papel de presente

Em uma rolha de vinho

Minhas pequenas ilusões
De amor

E que hoje
Me fazem tanta falta

Essas pequenas pedras
De matéria sutil

Minhas ilusões

Que vem em ecos
Que vem escondidas em músicas
Que escuto sem querer

Na rua

Minhas ilusões
Desqualificadas pelo clichê

Ao chamar assim

Ilusões

Mas eram minhas
E eu as amava

E era tão bom o que faziam comigo

Minhas pequenas
Ilusões de amor

Espero que um dia
Sejam encontradas

Por outro poeta
Ainda garoto

E espero que isso
Traga alívio

E quem sabe
Ele rescreva

Todos os meus poemas

Everton Behenck

O desespero
Desse apartamento

O vazio dos quadros
Se perdendo na memória das paredes

E como amavam
Os quadros apaixonados

As portas agora
Eternamente fechadas

Mesmo estando abertas

As portas
Já não levam a nenhum lugar

A tristeza do closet
Marcado pela mudança repentina

Não estão as roupas
As bolsas

Os sapatos

O espelho quebrado
As prateleiras arrancadas

Os parafusos retirados
E seus buracos

Ulcerados

A casa se alimenta
Dos restos que ficaram

Um pouco de lenha
Um frasco de remédio
Um grampo de cabelo

Os brinquedos da Cora
Repetindo que ela foi embora

O desespero desse apartamento
Sabendo que tudo ali dentro

Está perdendo o sentido

E logo
Estará fechado e vazio

O desespero desse apartamento
Nos esquecendo

Everton Behenck

Preciso terminar
De morrer

De uma vez

Que assim
Aos poucos

Tem doído tanto

Os olhos abrindo e fechando
Pela última vez

Sem realmente deixar de ver

A morte e a doença
E a tristeza lustrando o caixão

Carregando flores
Acendendo velas

Com a mão dela

Não pode ser
Essa coisa

De vida pingando
A conta gotas

Preciso acabar de morrer
De uma vez

Para voltar a viver

Everton Behenck

Ela esmaga
Com os cílios

Cada uma das quatro letras
Da palavra perfeita

Ela quebra meus dedos
Com seus cabelos

Para que minha mão não escreva
Este poema

Ela agride o que sinto

Para ter certeza
Da sua presença

Ela deseja estar

Sem entender
Que nunca se ausenta

Tudo que faço
Digo e sinto

Tem sido por ela

Mesmo quando fica irreconhecível
E vocifera

Palavras que nunca
Nasceriam entres suas costelas

Ela
É prisioneira dela

E eu

Sou seu colega
De cela

Everton Behenck