Sei que a velocidade se atira sobre minha pele e deixa marcas. Cada vez mais fundas. E elas não dizem nada. Minha pele não é nenhuma escritura.

Mais um ano avança faminto sem que eu perceba e já é novembro e janeiro ainda esquenta os cabelos, que não tenho tempo de cortar. Será que o homem que trabalha cortando cabelos, no salão da praça Alves, pensa no tempo caindo no chão? Pensa na vida perdida ali enquanto passa a vassoura? E joga no lixo os meses de outra pessoa. Quem sabe vividos? Quem sabe desperdiçados?

Uma amiga se oferece para me ouvir. Não sei o que dizer. Digo apenas que sou forte. Ao mesmo tempo, procuro a força dentro de mim como alguém atrasado procura as chaves de casa. Busco só para mostrar a ela. Não encontro. Não vou sair de casa hoje.

A distância me impressiona por sua estatura e as vezes parece que nunca saltaremos sobre ela. Mas eu ouço a voz do amor, como uma criança perdida do outro lado de um muro que divide cidades. Meu peito é a Berlim dos anos 80. Pelo menos há o alento de viver no futuro daquele tempo. Sei que o muro cairá. E nós, essa família separada pela guerra, nos encontraremos.

Tenho vendido caro meu tempo para fazer com que outros queiram coisas que eu mesmo não quero. Tenho vendido caro meu tempo. Mentira. O tempo não tem preço e sempre fará falta. O tempo falta.

E quando acabar?

O que restará de mim além do meu nome? Quanto tempo dura o nome de um homem? Cravo essas palavras no nada, querendo que elas digam mais que meu batismo. Que elas me esperem passar. Que não se dissipem tão cedo como a fala ao vento.

O mundo todo está morrendo em silêncio. Não me acorde.

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