Eu aqui, guardando esse sol nos olhos e na pele e no suor. Tudo é líquido e escorre. No sul, a chuva do mundo todo caiu. E não só os olhos de quem ficou estão molhados. O amor também está correndo como um rio urbano no silêncio dos raios.

Ilumina e mata.

Eu aqui. Acima de tudo, só. Imaginando os olhos de alguém que me pertence justamente porque me possui.

É coisa libertadora pertencer.

Disseram que algo estranho está passando na frente de uma estrela distante. Não é um planeta. Pode ser obra de uma civilização. Não sei. Mas gosto de pensar que outros agora também imaginam os olhos de alguém a quem pertencem. E caso não tenham olhos, gosto de imaginar que pensam em seja lá o que for que usem para inventar a realidade.

Deve ser triste não ter olhos para imaginar.

Ainda ontem, bebi sozinho e olhei a distância dos prédios e do horizonte que eles escondem. E pensei nela e pensei em mim e pensei no sul e pensei nessa estrela onde uma possível civilização orbita. Como se fosse possível essa coisa abstrata: civilização. Mas não sei o que me disse o pensamento.

Ando devastado e não chego a conclusão nenhuma.

Talvez por isso, pense tanto no propósito de tudo que faço e gostaria de encontrar em tudo um sentido profundo. Não encontro. Só carrego a honestidade que gosto tanto de pensar que tenho.

Quem brinca com essas luzes que vemos no céu à noite? Esse tempo onde estamos presos é tão estranho. Os acontecimentos nos atravessam como a luz atravessa o vidro da minha janela ao amanhecer. Quase me acorda. Mas não acordo.

A vida não está sendo justa com ela e nos seus olhos, que imagino agora, mora uma dor concreta. Como se houvesse um cisco no sol. Esse sol que guardo nos meus olhos e na minha pele e no suor. Os olhos que imagino são um sol. Tenho pensado e sentido todas essas coisas e não tenho tido tempo para viver. Mas não sei o que isso quer dizer. Não parece, mas estou sorrindo agora. Me irrito com os dias e com as noites, mas ainda assim, fora da vida parece pior.

O silêncio brutal do espaço.

Então, acho que vou pensar um pouco mais. Nos olhos dela. No amor que anda brincando com o menino que mora dentro dos meus ossos. E é sério. Então, acho que vou pensar um pouco mais na civilização orbitando a estrela e vou guardar para depois a lágrima que não choveu no sul.

Foto de Everton Behenck.
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