É tanto que te amo
Nesse acumulo de horas

Que já somam um ano

Partilho os dias
Como quem divide a única comida

Um grão para ti
Outro para minha boca

Que há tanto não se alimenta

Desenho no ar
Com o ar que expiro

É tua falta essa tinta

Arrasto no chão
Os pés fartos

Não importa onde pisam
Estão indo ao teu encontro

Os pés não sabem
Que vou e volto para casa

Os pés reclamam
Que nunca chego

E choram pegadas e mais pegadas
Que a calçada não entende

É tanto que te amo

Dentro dessa vida
Dada a nossa revelia

Essa que empresta
De ti o nome

E me consome
Na vontade insone

De um beijo

Há sentido dizer beijo
Dentro de uma boca vazia?

É tanto que te amo
Morando dentro dessa urgência

O mundo ampulheta
Os olhos de areia

Sem te ver

A pele já sem memória
Acordando para o toque

Agora

Inventando o calor da tua pele
Para que o tato se revele

É tanto que te amo
Que em tua ausência

Nada serve

A vida é uma roupa apertada
Não veste

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