Poema da morte
E da fome

Poema da miséria
Nos olhos

Da pobreza nos dedos

Poema do medo
De nós mesmos

Eu que nunca
Fui covarde

Tremo inteiro
E me assusto

E olho para todos os lados
Como quem não sabe

De onde veio o golpe

A morte sempre chega
De surpresa

E tudo morre

Todos sabemos
E mesmo assim

Não entendo

O corpo não entende
Os órgãos internos não entendem

O espírito
Se existisse

Não entenderia

Poema de areia
Movediça

Engolindo toda estrada
Que leva de mim

Para o nada

Há pouco eu tinha um destino
De olhar definitivo

Já não tenho

Poema do vício absurdo
E do tremor nas mãos

E da abstinência

Poema drogado
E convulsivo

Poema que me torna menino
E fraco

Poema mendigo

Poema doente
De afeto

Poema da lágrima
Que implode

Olho adentro

Não choro
Estou seco

Poema perdido
No tempo

Que não nos demos

Poema da crueldade
E da vilania

Que é matar o amor por asfixia

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