O meu medo
É deixar de olhar pra ti

Com esse encanto

De quinze anos
De muitos sonhos

De vida inteira pela frente

Meu medo é nunca mais ter
Tanta vida pela frente

Meu medo é aceitar
Que não fomos, somos ou seremos

E nesse momento
Encher meus olhos de rugas

As costas curvas

A voz atravessando décadas
Em uma única fala

Adeus amada

Meu medo
É essa aposentadoria
De sentimentos e romantismos

Que viria
Com o entendimento

De que não será meu
Teu filho

E de que meus braços
Não terão forças

Para levantar uma criança
Que não tenha teus olhos

Meu medo é me tornar
Tudo isso que digo

Cheio de orgulho

E que no entanto
Não passa de um sintoma

De tua ausência

Quem precisaria ser tão forte
Ter o pensamento tão alto

Tendo você ao lado?

A força
Serve para que eu suporte a distância

A altura de pensamento
Serve para que eu entenda a distância

A literatura e os versos
Servem para que eu possa falar sobre a distância

Sem ter de te ligar
Ou aparecer em sua casa diariamente

E assim
Você me enxerga forte
Alto e bonito

No que digo

Sem saber que só cultivo
Essas coisas todas
Para ter as mãos ocupadas

E que pensarei em ti
Assim que qualquer uma delas

Se distraia

Meu medo é não conseguir dizer
Mais nada

Assim que você parta

Everton Behenck

*último poema da série

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