Vê como é inútil
A torção dos versos

Em sua boca

Ou o silêncio
De teus ossos

Ou o estalo fraturado
De teu passado

Vê como é inutil
A marca do soco

Que te deram

A cor dos dentes
Em teu riso

O equilíbrio dos teus lábios
Fechados

Na medida inexpressiva
Do silêncio

Olha como são inúteis
Os contornos

Do teu rosto quando goza
Ou a força anterior ao gozo

Não é amor
Ainda que seja

E ninguém sabe o que se acomoda
No suor que se renova

Vê como é inutil teu trabalho
Árduo

Que te cobra o quanto paga
Infinitas vezes

Esse sucesso
O eventual dinheiro

A possível cobiça

Tua promoção
Ou tua aposentadoria

O cansaço das tuas mãos
Ao baterem no chão

Vê como é inutil
Teu cuidado

Para não ferir o ente amado
Para odiar com força

O inimigo

Olha teu sangue inútil
O ar inútil nos pulmões

Sem serventia

O quanto é inutil
Teu dia

E o amanhecer dos olhos

Aperta contra o peito
Essa inutilidade

E ela quem sabe
Te console

Everton Behenck

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