A chave gira
A fechadura

E é só um mecanismo
Não significa entrar

Nem sair

O corredor
Leva a todos

Os cômodos

Mas não me sinto
Chegando

E se virasse as costas
Não estaria indo

As estantes guardam
Com todo o zelo

O que não me importa
Perder

Ter algo
Não é isso

O interruptor
E sua chama
Instantânea

Iluminam a casa

E ainda assim
Não é luz

O controle remoto
Assiste simultaneamente

Canais infinitos
Sozinho

Os livros
Viram as páginas

Sem dizerem nada

A musica toca
Alta

Mas é como se tocasse
Lá fora

Tamanha distância

O cigarro queima
Rápido

Mas não parece ser
Em meus lábios

A garrafa
Cada vez mais escassa

E minha garganta
Não sente nada

E por saber
O que não arde

Bebe
Um pouco mais

Para lembrar
O que deveria sentir

E não está ali

Esses dedos
Que dizem essas coisas

Que você lê agora
Parecem não me pertencer

De meu mesmo
Só esse alivio

Em não estar

Everton Behenck