Amanheci no rosto
Dela

Que escreveu
Com a pele

O que significa
Meu nome

E não o que ditou
O escrivão de cartório

Analfabeto

Ela trouxe
Na luz dos dentes

Um jeito diferente
De dizer

Intimidade

Sem que tenhamos
Sido apresentados

Casal de cegos
Tudo dito em braille

Fluente

Espelho antepassado
Onde me vejo

Inteiro

E só consigo
Dizer em um gemido

Repetido como um mantra
Anterior a nós

E desse passado
Invocado pelo tato

Vem esses laços inexistentes
Que nos amarram

Mulata, pele escura
Dente branco

De repente era eu
Orfeu

Eu que nunca fui rei
Longe mim

Conquistei em ti
Um continente

Apesar de todas as estatuas
Terem sido erguidas

Em tua homenagem

Você criou esse pais
Idioma, moeda, regras

Língua

Para que eu reinasse
Soberano

Eu que só pedia
Asilo entre tuas pernas

De repente estava
Nesse exílio

No quarto mais antigo
Da casa da infância

Minha quarta
De cinzas

Depois de ti
Nada

Meu soneto
De carnaval

Rima mais bonita

Verso livre
Como nunca tive

Sigo meu caminho
Te levando comigo

Segue teu caminho
Que eu vou te seguindo

Everton Behenck

*citação do poetinha e seu Monólogo de Orfeu.

Anúncios