Quantos iguais
A ti

Serão necessários

Até não ser mais possível
Negar

Que estamos unidos
Pelo peito

Irmão
Esquerdo

Teu santo e o meu
Não são os mesmos

Mas dançam no mesmo
Terreiro

Sob a mesma raiva

Na fumaça da mesma vela
Quebrada

Na história que rezamos
Mal contada

Para que soe mais bela

Eu também invento a vida
Mas tu é mais poesia

Todos os santos
Não são suficientes

Para tantas correntes

Um sofre o que o outro sente
E nenhum dos dois entende

Te compram e te vendem
E te deixam sempre

Eu te ouvia
Chorar a menina

Que te fez escravo

Enquanto eu
Também me acorrentava

A pele escrava
Por escolha

Não há salvador
Para a gente

Amigo continente

Só a esperança
De um bom fim

Absurdo
E divino

Nas costas marcadas
De um pelourinho

Everton Behenck

*Para o amigo Wil. Que mora na rua, fala francês e inglês e não vai ter chance nenhuma.