Esse pequeno conto
De fadas

Um poeta e sua amada

Uma vida dividida
Em tantos nadas

E outra
Fadada aos planos

Alianças e sonhos

Ele
Com sua vida
Desmedida

Procurando uma saída
Inexistente

Um amor ausente
Em passos tão diferentes
Quem teria pena
Deles

Esses que não se encontram
Mesmo que se procurem

Verão quem sabe
Uma pegada
Quase apagada

Que dirá

A direção certa
Indicando para ele

Ela

Essa menina
Procurando o amor

Em sua sina

De construir a vida
Na tentativa

De ser precisa

Em meio a tudo isso
Que se joga contra o infinito

Destruindo tudo
E todos

Pouco a pouco

Uma menina
Decidida
A colocar alma

Em sujeitos
Tão sólidos

Profissionais liberais
E seus destinos óbvios

Onde não costuma haver nada
Para a mulher amada

Além de um destino
De sala arrumada
E contas pagas

Ela procura
Enquanto lê

Como em uma profissão de fé
Os versos que ele escreveu

Para que ela soubesse
O que acontecia

Em sua prece mais íntima:
A poesia

Logo ele
Que não podia

Que não esperava da vida
Mais do que tinha

Em sua loucura
E sua força
De quem enfrenta
Com tanta fúria

Suas lutas obscuras

E sabe que isso
Só é possível

Sozinho

Ele não sabia
Que inventava a vida
No que escrevia

E nascia
Entre seus dedos

Um amor sem medo

Surgia de si
Um homem

Que esperava
Cheio de afeto

Que preparava as mãos
Para o carinho

Mais bonito

Um homem
Que talvez
Por nascer assim

Sem espaço
Ou tempo

Não temesse
A distância

Nem a ausência

E ele ficou ali
Escrevendo o nome dela
De todas as formas

Intuindo seu beijo
E o momento do choro

Para consolar seus olhos
Para mostrar o quanto

E na beleza
Desses acenos
E recados deixados

Para serem encontrados
Na hora exata

Em que o outro chamava

Nascia esse destino
De partilharem
O que sentiam

E finalmente se viram
E ao ver souberam

E chegaram mais perto

E logo não foi mais possível
Desviar os olhos

Ele quis seu olhar
De céu

Para que pudesse respirar

Ela quis seu fogo
Para aquecer

O frio que deixaram outros
Que sabiam do amor

Tão pouco

E do fundo dessa impossibilidade
De onde não conseguiu
Nascer nem mesmo

Um único beijo

Nem uma noite de amor
Para guardarem consigo

No lugar mais bonito

Ambos olham
O lado oposto

Procurando o rosto
Do outro

Imaginando
Como

Tornar realidade
Uma vez que fosse

Algo tão lindo
Que de tão lindo

Não pôde

Everton Behenck