Foi sem sorriso, que ela bateu com força as asas que não tinha. E quis que, de repente, o chão se abrisse e cortasse a mesa, o bar, o maço de cigarros, o cinzeiro. Tudo ao meio. E arrastasse toda aquela metade de mundo a sua frente para longe. Desejou que essa fenda afastasse a mão que procurava seus cabelos. O sorriso ensaiado a sua frente. O cheiro ácido de cada desculpa. As justificativas nulas.

Foi sem nenhuma força que disse baixo: tudo bem, não. Tudo bem o caralho.

E passou a mão nos olhos secos sem nenhum orgulho do que sentia. Se deixou doer. Tinha que doer. Tinha de ser com raiva sob as unhas. Nunca é de outra maneira.

Olhou em volta para ver se tudo e todos haviam sido consumidos pelo que sentia. Mas todos ainda estavam lá. Ela ainda estava lá. Tirou o anel do dedo esquerdo e o engoliu. A seco.

Everton Behenck

#esse é um dos muitos textos dos duelos poéticos que rolam lá no http://passarosachados.blogspot.com/.