Não te escreverei esse poema
Dizendo repetidas vezes

Que estou ferido
Em um órgão desconhecido

E que dele brota
Pouco a pouco

Gotas do que foi
Teu rosto

E já se forma um fio
De tua voz

Querendo pingar
Da ponta dos meus dedos

E ao experimentar essa textura
Sinto palavras esvaírem seu sentido

E dói um pouco de cada homem em mim
E arde um pouco de cada tarde

Onde alguém se encontrou só
Mesmo carregando outro nome consigo

Escrito
No lugar mais bonito

Não te escreverei esse verso
De lirismo honesto

E limpo

Porque não pretendo lembrar
Que também tenho a mesma fome
Os mesmos medos

E os mesmos nomes
Em minha agenda de telefones

E que não passamos
De bichos sem sentido

Procurando abrigo uns nos outros

Esperando que nos ofereçam
O que também não temos

E que isso
Não será possível

Não direi nenhuma vez
Que entendo esse desespero

Em se justificar
Através e antes

Que passem tua beleza
Teu encanto

Tua certeza de que há muito a conquistar
E nada a perder

Não há

E sendo assim
Não fui eu quem se foi

Naquela manhã

Foi aquela
Que você era em mim

Que deixou de existir

Em mim
Você foi muito mais bonita

Do que imaginava teu espelho

Do que te diziam homens
Eretos

Em mim
Você foi bonita o bastante
Para que esquecesse tua beleza

Era mais importante
O que diziam teus cílios

E não o quanto são bonitos
Em teu rosto

Importava mais o silêncio
Do corpo sob as cobertas

Do que tudo que poderiam dizer as pernas
Abertas

E eu me consumia
Em um carinho aflito

E te amava
Sem meias palavras

E arrumava a casa
Onde agora não há nada

Everton Behenck