Quem teria paciência
Para escavar minha cabeça

Abrir com as unhas
Uma imagem cheia de espinhos

Bêbada de vinho

Quem tem tempo
Para arredar as frases

E encontrar o que digo
Perdido nos cantos

Cambaleando
Os desencontros

Sempre a ponto
De cair em desgraça

Na melhor das hipóteses

Quem tem vontade
De girar o disco

Para ouvir o que canto
Contrário

Nesse pacto anti-horário

Quem sujaria as mãos de terra
Para colher minhas flores

Sem cor ou perfume

Quem molharia um olho
Emprestando alegria em segredo

Enquanto um inseto me devora os dedos

Quem atravessaria
Meus gestos secos

Fugindo dos dentes
Da minha palavra

Quem diria sim
Me entregando a alma

Mesmo sabendo que não acredito
No espírito

Só no exorcismo

Everton Behenck