Eu já fui
Quase inocente

Já estive a ponto
De ficar louco

De novo

Já estive morto
Por uma tarde inteira

E adoeci de poesia
Por uma vida

Já chorei
Sozinho e de joelhos
Em frente ao espelho

Como condiz
A quem não sabe

Negar a face
Da tristeza

Já sofri de delicadeza

E já vi a beleza
Se desfazer sobre uma mesa

Palavra por palavra

E não sobrar nada
Para pegar com as mãos

Amarguradas

Já estive tão perto
De um amor sincero

Que nasceu um jardim
Mesmo em minha sombra

E essas flores eu pisei com o idioma

Já fui tão feio
Que me tranquei no escuro

Morrendo de medo
De mim mesmo

Já estive tão sereno
Que pensei por um momento
Que sabia o que estava fazendo

Não mesmo

Everton Behenck