Porque não posso
Simplesmente aquietar

E viver

Sonhar com uma casa
Uma esposa
Um emprego e filhos

Bonitos

Mesmo que nada disso faça sentido
Porque preciso
Alimentar esse bicho

Que me corrói
De verso e vício

Que sentença é essa

Eu confesso
Invento crimes
Quebro a caneta

Por uma redução de pena

Por um habeas corpus
Do meu corpo

Eu renego

O pouco de doçura
A que me apego

Eu recolho
Os cacos de delicadeza
Que escolho para cortar os pulsos

Eu me converto
A qualquer seita
Que me aceite
Que me perdoe os pecados

Que cometo
Sem nenhum arrependimento

Ajoelho perante
Qualquer padre

Que pare

Essa penitência
Que me imponho

Não há de ser minha a culpa
Desse mundo sem desculpa

Para existir

Será preciso
Ser minha própria presa
Para matar esse bicho na minha cabeça?

Everton Behenck