Um dia

Vou me desfazer

Na terra

 

Me diluir

Em partes

Tão pequenas

 

Que a partir delas

Poderia ser:

 

O que for

O que der

 

O que o chão quiser

 

Não ser nada

Exatamente

Como sou agora

 

Uma parte

De um Tudo

Tão complexo

 

Que não há palavra

Para dizê-lo

 

E como é bom

Não sabê-lo

 

O que te prende ao chão?

 

Essa força

Que força tudo

Ao centro

 

A terra dura

A água pura

O ar

Onde me afogo

 

O que te joga ao céu?

 

Esse não poder ser só

Eu rogo a alguém

Que não sei o nome

 

Mas cada noite

Insone

O conhece

 

Não sei da prece

Mas o milagre conheço

 

De perto

 

Mas nenhum milagre

Impede a tarde

Que parte

 

Um dia não vou ser mais

Que um voltar pro mundo

 

Notando o peito

Na memória de quem fica

 

Nada explica

A vida

 

Esse destino inevitável

 

Nada sabe

A morte

 

Esse voltar a fazer parte

 

Como sabemos ser eternos?

Se nem mesmo

O próximo segundo nos pertence

 

Somos o fogo de uma vela

É bom que queime.

 

Everton Behenck