Tenho fome

Simples

Nas costelas vazias

Tenho fome nas mãos

 

De um rosto

 

Fome de mais dentes na boca

Para sorrir

 

Para mastigar a voz

Antes de dizer

 

Fome de uma palavra

Que nunca ouvi

 

Fome nos pés

De um rumo

 

De um passo de dança

Ainda por inventar

 

Ao som de uma música

Ainda por vir

 

Para os ouvidos ainda por nascer

 

Fome de um chão

Que faça sentido

 

Em sua dureza

 

Tenho fome

De uma mulher faminta

 

De morar em sua barriga

 

Fome nos olhos

De um horizonte

 

Onde o sol lembre de nascer

 

Fome de outros olhos

Nos meus

 

Da palavra retida

Na retina

 

Fome do silencio

Da paz que ele traz dentro

 

De si

 

Tenho fome das coxas

Da moça

De ser engolido entre elas

 

Tenho fome da boca

No seio

 

Fome sem freios

 

De correr

Mesmo que não haja

 

Chegada

 

E que atrás

Não exista nada

Do que fugir

 

Tenho fome da foice

Para cortar rente

 

Minha ausência de sentido

 

Tenho fome da distância

Para tentar me ver de longe

 

Reconhecendo

Meu próprio aceno

 

Everton Behenck