Ainda há tanto o que se emocionar

Tudo tão repleto

De simetrias

 

Lindas

 

Essas rimas

Da vida

 

O colega de trabalho

Que senta ao lado

E nunca esteve tão distante

 

O vendedor de mapas na esquina

O mundo nas mãos

E nenhum horizonte

 

O homem que corre

No parque

Do que ele foge?

 

Da morte

 

Um motorista de plantão

Esperando o próximo passageiro

Com pressa

 

Mesmo sabendo que todos os sinais

Estão fechados

 

Um mendigo ao lado

Há mais alegria

Nas roupas sujas

Do que na barriga vazia

 

Mas não é a fome que come a alegria

 

Lá dentro é sério

 

Seu olhar atravessa paredes

Porque já esteve em todos os lugares

Foi todos os homens

 

Sabe que não há verdade

Nem saída

 

Por isso observa a vida

Sujo e descalço

Já deu o último passo

Sem ter para onde ir

 

Chegou

 

Há tanto o que se emocionar

 

Com a menina que nasceu ontem

Com suas roupas rosas

Bordadas de doçura

 

Tomara que não sofra

Além da conta

 

Quando um homem

Lhe ferir o peito

Com um beijo

 

Os homens são sempre avessos

 

Quanta emoção em seu choro recém nascido

De quem ainda não entende nada

 

Antevendo saber

Que isso pouco mudará

 

O amor há de compensar

 

Há tanto pra se emocionar

 

A riqueza do homem

Que desfaz seu significado

Quando fica sozinho

 

Em sua nudez de sentido

 

Tanto há se emocionar

Com a moça

 

Sonhando que sua beleza

Seja o bastante

 

Se olha no espelho

Como quem reza a uma santa

 

As rugas ensinarão

Que não existem milagres

 

(Não para os covardes)

 

Ainda há tanto o que se emocionar

Que não é hora de parar

Everton Behenck

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