Quem senão tu

Poderia estar aqui

No meu peito

Mesmo que eu me ausente

 

Mesmo sabendo

Que quase nunca

Estou aqui dentro

 

Quem senão você

Poderia me acompanhar

Nesse eterno me perder em mim

 

E viver sem nenhuma certeza

Essa estrada avessa de dúvidas

Onde as placas não apontam horizontes

 

E onde todos os cruzamentos

São extremos e perigosos

 

Quem teria tamanha coragem

De olhar a face

Que eu mesmo

Tantas vezes

Me nego a ver no espelho

 

Quem teria essa alegria em saltar

Do prédio mais alto

Dessa cidade em ruínas

Onde moro exilado

 

Um soberano acuado

Em seu reino

Sem tesouros

Sem cavaleiros

 

Que protejam

 

E ainda assim

Você procura

Entre as sombras

O menino embaixo da cama

 

Morrendo de medo

Porque no armário há um monstro

Com seu rosto

 

Quem além de ti

Me espera na manhã seguinte

Quando sabe

Que na manhã seguinte

 

Posso não ser mais que uma lembrança

 

E não se importa

Em não conseguir mais

Me tirar da memória

Mesmo que a memória

 

Machuque as horas

 

Quem além de ti

Não desistiria de mim

Quando eu mesmo

Já desisti há tanto tempo

 

De me salvar

 

Quem além de ti

Se dispõe a queimar aqui

Nesse exato momento

Tocando a chama do peito

 

Que no fundo

Não é mais forte

Que o fogo de uma vela

 

 

Quem poderia pedir socorro

Quando sou eu quem corre perigo

Quando brinco de olhar a morte

No buraco da fechadura

 

Querendo que ela me descubra

 

E quando ao redor alguém se assusta

E pede para que eu pare

E não arrebente o fio de sentido

 

Quem além de ti estaria comigo

Para segurar minha mão na volta

Áspera e dura

 

Da minha loucura

 

Everton Behenck