Bato na porta

É a volta

 

Os olhos percorrendo

Essa casa de esquina

 

Vazia

 

Onde há tanto espaço

Em cada quarto

 

Que ali muitas vezes

 

Me perdi

 

Ali

Existe um de mim

Menino

 

Com os olhos baixos

Olhando o chão

De uma paixão

 

Criança

 

Uma menina de tranças

 

Que roubou um beijo

De um garoto sem jeito

 

Há ali

 

Um de mim

Atirando pedras

 

Em um outro Eu

Culpado

 

Amarrado ao passado

 

Há um

 

Esperando a beira de si

 

Com o coração na mão

Por não saber a direção

 

Há um rezando

Em segredo

 

Enquanto outro lhe aponta o dedo

Rindo

 

Há um de mim sofrido

E outro louco

 

Um bicho solto

Caça

 

Uma criança

 

Que fugiu de um morto

Com meu rosto

 

Outro de mim

Com o rim exposto

 

Sangra

 

E em seu sangue

Um de mim

 

Sem cor

 

Planta uma flor na terra

Vermelha

 

No jardim interno

Dessa casa de inverno

 

E um de mim cego

Sob um telhado de céu

 

Canta com o chapéu a frente

 

Esperando que alguém jogue

Uma moeda

 

Enquanto um outro

Serra a cela

 

Um Eu espera Ela

 

Na janela

 

E outro com a saudade curvando as costas

 

Vem me receber à porta.

Everton Behenck