Não gosto tanto

Quanto parece

De ser essa prece

 

Ao pé de um santo

Que não chora sangue

 

Que não sabe

Do milagre

 

Não gosto tanto

Quanto pode parecer

 

De beber fogo

Sobre fogo

Até que o corpo apague

 

E alguém

Me acorde

Com a mão disforme

 

Não gosto tanto assim

De tudo o que corre

Em minhas veias

 

A alegria

Que engulo

 

Uma a uma

Até que o mundo

Suma

 

E sobre ele

Se erga

A loucura

 

E sobre ela

Uma lacuna

E dentro deste espaço

 

Uma felicidade

Idêntica a de verdade

 

(A não ser pelo prazo de validade)

 

Me dizendo que já é tarde

Para saber a diferença

 

Não gosto tanto assim

Dessa certeza

 

De que nada existe

A não ser dentro da minha cabeça

 

Mesmo que seja ela

Quem permite

Que eu me liberte

 

De nada adianta

Ser livre

 

Se nada existe

 

Não gosto tanto

Quanto você diria

 

Da verdade sob a língua

Dizendo aos olhos

 

Que tudo pode ser

 

Que a terra respira

E de seu suspiro

Nasce um filho

 

Meio planta meio vício

E de seu choro

 

Um poço

 

Onde nenhuma moeda

Mesmo aquela

 

Do desejo mais sentido

Encontra abrigo em seu fundo

 

E nessa queda

Eterna

 

Acordo perdido

Sem nunca ter dormido

 

Não gosto tanto assim

Do suicídio

 

Mas posso estar mentindo

 

 

Everton Behenck