As vezes
Tenho certeza
Que explodirei a cabeça

Em algum momento

Ou tomarei veneno
Quando ficar velho

E muito mais
Cansado

Paro

E digo
A um grilo surdo
Que mora em meu ouvido

Digo alto
Para que ele repita

Nada mais brega

Que um poeta
Suicida

Everton Behenck

Hoje eu digo alguns poemas meus na festa. Amanhã a noite encontro os monstros Antonio Cicero e Eucanaã Ferraz para dizer poemas de Vinícius de Moraes. Confere a programação. Tem MUITA coisa imperdível.

http://festipoaliteraria.blogspot.com.br/p/programacao.html

Não espero que nosso amor
Quebre seus ossos

Para caber em outro corpo

Não vou forçar
A reencarnação

Temos nossas próprias
Cores inóspitas

E não pretendemos
Transformar um no outro

Para que eles se anulem

Eu existo
Para que você exista

E hoje
Nenhum de nós liga

Para as coisas que nos separam
Sem que nos afastem

Não somos metades
Nem a terra prometida

Somos humanos
E isso é ter algo faltando

Não somos o que se encaixa
Nem o que se completa

Alguns lugares foram feitos
Para ficarem vazios

E ficarão

Não somos
Almas gêmeas

Ela fala com seu anjo
Enquanto eu

Enfio o dedo no nariz de deus

Não pertencemos um ao outro
Sendo que a vida pode nos tirar
A qualquer hora

Sem maiores explicações

E isso
Faz toda diferença para mim

Nós não somos um casal de novela

Nem impressa
Nem das oito

Nós não somos espelho
Um do outro

Não olho para ela para me ver
Olho para ela para vê-la

Mas isso não impede que ela seja
Uma espécie de versão de mim

Que existiria em algum universo
Paralelo

Somos um encontro
Fundador na vida do doutro

Nós
Nos inauguramos

Somos o hemisfério esquerdo
E direito

Do mesmo cérebro

Somos o exato instante
Do ataque

Epilético

Depois
Somos o remédio

Everton Behenck

Aquele menino
Já sabe o que é
Não ter paz

Sente

Que dentro de si
O tempo passa
Muito mais rápido

São anos correndo
Em seu choro lento

Nasce dentro do menino
O homem

Dentro do homem
O velho

Aquele menino
Tentando falar

Por entre os restos
De dignidade

No gesto desesperado da mãe
Frente ao silêncio do pai

Aquele menino
Tentando ser justo

Na balança dos lábios
Pequenos

Não quer marcar ninguém a ferro

E como queimam
As palavras das crianças

Aquele menino
Mede suas lágrimas

De criança farta

E vai passar a vida
Dizendo que não foi nada

Mas serão incontáveis as vezes
Que pensará nisso a noite

E logo se voltará
Para as pequenas coisas da casa
A mulher amada
O filho que terá um dia

Mas que agora

Não passa de uma criança
Feita de sombra

Aquele menino
Que levanta as mãos

E as abaixa

Com a pressa mágica
De sentir-se capaz

De dizer com o ar

Aquele menino que está
A milhares de quilômetros de mim

Tentando conciliar os pais
Dentro de si

Aquele menino
Onde alguma coisa
Se perdeu

Sou eu

Everton Behenck

Eu queria dormir para sempre

Dormir
Não morrer

Eu queria dormir para sempre

Dormir
Não sonhar

Porque sonhar
É como viver

Eu queria dormir
E esquecer

Sem que fosse triste

Esquecimento
Como forma de existir

Pelo tempo exato

Eu queria dormir para sempre
Consciente do sono e das horas

E de tudo que se move lá fora

Everton Behenck

Eu que nunca fui afeito
A datas

Empalhadas pelo comercio
E presentes de todo preço

Que nem sempre desejam
O que seus cartões

Com desenhos sem talento
Tentam dizer

E acabam não dizendo

Eu que nunca comemorei
Dia nenhum

Nem aniversário
Nem natal

Eu que fujo do coelho
E dos reis magos

E das 5x sem juros com entrada em 30 dias

Eu que sou chato
E recuso quase tudo

Me agarro a este dia
Para dizer

Que só uma mulher
Tem força e carinho

E a alegria infantil de acreditar
No que não acredito

E mostrar o que não vejo
Perdido no peso

De tudo que penso

Onde não existe muito espaço
Para as coisas leves

Para que meus braços carreguem

Então ela consegue
Que eu solte

Um sorriso enorme

Amo uma mulher
E essa mulher é minha

E levará uma vida inteira
Ao invés de um dia

Para que ela entenda definitivamente
Que o amor da gente

É o dia santo
O feriado religioso

Que se comemora o ano todo

Esse tanto de sangue
Invisível

Correndo nas veias
Abertas

Que ninguém enxerga

Esse grito
De dor contido

No mais intimo silencio

Ninguém esta vendo
O tempo doendo

Seus ponteiros

Os dentes cerrados
Rangendo

As mãos apertando
O vazio

Ninguém esta vendo

O menino morrendo
Dentro do homem

O homem morrendo
Dentro do velho

O poeta
Morrendo dentro dela

Everton Behenck

Pequenina
O que você nos ensina

Sozinha
Em sua cama de cimento

Que a vida passa
E não vemos

E que um dia
Não voltaremos

Hoje você dorme
Como todos dormiremos

E quem sabe

O chão sonha contigo
Molhado pelas lagrimas dos filhos

Será que você sabe

Nessa noite enorme
Que te cobre

Que salvou meu casamento

Com essa sabedoria
Que já não respira

Eu olho o espelho
E te procuro ali dentro

Esses vinte e cinco por cento
De mim que te cabem

Você enganou a morte
Tantas vezes

Você ficou
naquele chão quente

Mas voltou com a gente

Aquele bebê
Tem teus olhos

E te pertence

E meu filho
Também será parecido contigo
E só existirá por tua causa

De muitas formas

Que longa tua vida pequenina
Que acaba e nunca termina

Everton Behenck

Vocês não tem pena
Desse bicho

Sozinho

Perdido no abismo
Da autoconsciência

Atado à presença da morte

Vocês não se comovem
Com esse animal

Que sabe somente o suficiente
Para entender

Que não entende

Como pode um cão
Despertar mais compaixão

Se é o homem
Quem mais precisa de amor

Vocês não se compadecem
Dessa espécie

Que simplesmente
Não consegue

Vocês não percebem
Que é preciso

Dedicar todo o carinho

Para tirar o homem
De dentro do bicho

Everton Behenck

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