Eu bebo
Mais do que devo

Apago

Não me lembro
Eu caminho
Linhas e linhas

Pairo acima
Do dia

Eu ponho sonhos
Sob a língua

E invento uma alegria
Colorida

Para estender em frente a retina

Sou inocente
No que procuro tanto

Em meus espantos
Eu sonho para dentro

Everton Behenck

Um dia
Uma voz aflita

Me dirá teu nome

Escondida
Em minha própria voz

Que some

Teu nome
Como o calor da tua mão

Teu nome
Como a boca no seio

Um dia
Minha vida frágil

Precisará te chamar

Para que um velho
Pinte em si meu rosto

Lembrando teu gosto

Everton Behenck

De que adianta
Saber

Quantos centímetros
De afeto

Cabem em teu abraço

É só osso e pele
sob a roupa

É só força motora

De que adianta
Os mílimitros cúbicos

De carinho

No vazio da tua boca
É só ar retido

Em teu suspiro

De que importa
Tuas pernas abertas

Se entre elas
Só cabe

Um gemido

Everton Behenck

Uma buzina grita
Ao longe

E sem saber que vida aperta
O volante

Nem porque

O som se faz presente
Em sua natureza pura

Não há a afetação da vida
Em sua harmonia

Um som despersonalizado
É mais que um chamado
Um aviso

Um pedido

Um som despersonalizado
É metafísico

Everton Behenck

Com a lentidão dos dentes
Mordendo

Em uma fome estática

Com a raiva dos dedos
Enterrando a força

Na pele

Com a vontade
De quem não consegue

Com a velocidade
De quem espreita

Ao pé da partida
Uma despedida

Com o desejo sincero
De que tudo se quebre
Ao menor toque

Com a força de um abraço
Pesado

Abra o corpo
Lento

E olhe lá dentro

Everton Behenck

Nós que somos
O rangido do balanço

De onde não caiu
O menino

Nós que somos
A areia sob o banco da praça

Onde uma moça encontrou
Quem esperava

Na hora marcada

Nós que somos
A fumaça do cigarro

De um velho
Que não morrerá de câncer

Nós que somos
A aliança do marido

Que nunca foi traído

Nós que somos o ruído
Do sono de uma criança

Quando não sonha
Nenhum pesadelo

Nós que somos o segredo
Que não destruiria

Nenhuma família

Nós que somos
Sem que ninguém saiba

Everton Behenck

Penso em você
Como quem perdeu
Algo de seu

Há muito tempo

E só restou
O movimento

Do que foi tirado
Repetindo a falta

A minha volta
Diariamente

Penso
Como quem tenta
Deixar de ser

Mesmo sabendo
Que não será possível

Romper consigo

Everton Behenck

E de repente
Ao andar na rua

Ao abrir uma porta
Para uma senhora

Morta

Ao cumprimentar um amigo
Que já não parece consigo

De repente
Ao olhar a mãe

E não se ver lá dentro

Ao ver que um filho
Seria uma dor

Impossível

De repente
Ao acenar com a cabeça

Uma condescendência
Indigna

Ao ver a agonia
Como um capricho

E o vício

Como o único batimento
Cardíaco

De repente ao implodir os dentes
Na palavra indizível

De repente
Na mínima recusa ao espelho

De repente
Ao menor medo

De estar irreconhecível
Ao menor estalo

De realidade nos ouvidos

De repente ao menor ruído
De um amor perdido

Me vejo vivo
E respiro

Aliviado

Everton Behenck

(que bom voltar a escrever aqui. beijo a todos! feliz ano novo atrasado!)

Ando louco pra escrever mas to precisando organizar a vida.
Valeu a quem andou por aqui. Escreve pra mim.
Comenta alguma coisa quando me encontra.

Vocês são uns amores.

Beijos e um dois mil e dez com um pouco mais de poesia. Mesmo que dolorida.

Não é fácil
Se despir na porta

Antes de ir embora

A nudez das coisas
Que não estarão em nada

Além da pele

Nesse momento
Não servem

As infinitas possibilidades

Minha idade
Carrega os anos
De vocês todos

E pesa tanto
Levá-los comigo

Mas como é bonito

Everton Behenck

Não vou dizer nada
A mão encostada no rosto
Que diga

Os dedos entre os cabelos
Que falem

O beijo que conte
À boca

O que lhe é urgente

Não direi uma palavra
O tronco inclinado
Na direção dela
Que fale o que é preciso

Que meça a distância

Que peça abrigo
No abraço

Não direi que vidas se passam
Ao meu lado

Até que ela volte
Passo a passo

Não falarei da ausência
A face que fale
Por mim

Será assim

Sem nenhuma palavra
Que ela saberá

Que agora
É tarde para ir embora

Everton Behenck